Supply Path Optimization: quanto custa cada atalho da sua mídia programática

Eduardo Prange é CMO da Alright e CEO e cofundador da Zeeng, plataforma SaaS de social media benchmarking. Cofundador da Seekr, empreendedor Endeavor e professor do MBA de AI e Data Science da PUCRS, é especialista em Creator Economy, inteligência artificial e dados aplicados ao marketing. No @ocaradosrankings, transforma dados em rankings que explicam a influência digital.
Supply Path Optimization (SPO) é a prática de escolher, entre os vários caminhos que levam à mesma impressão, o mais curto, transparente e barato. A diferença não é detalhe técnico: segundo o guia de SSPs do IAB Spain, conexões diretas entregam de 70% a 80% do investimento ao publisher, enquanto caminhos indiretos entregam de 40% a 50%. O ponto que quase ninguém discute é que um SPO feito apenas cortando domínios pequenos acaba cortando o Brasil regional junto. A versão eficiente combina caminho direto com inteligência territorial.

O que é Supply Path Optimization (SPO)
Na mídia programática, uma impressão raramente viaja em linha reta. Entre o espaço publicitário do veículo e a DSP que decide o lance, o pedido passa por wrappers de header bidding, SSPs, ad exchanges, revendedores e, cada vez mais, camadas de curadoria. Cada uma dessas empresas é um nó do caminho, e cada nó cobra a sua parte.
O SPO é o trabalho do lado comprador de mapear esses caminhos e eliminar os que não agregam valor. Para isso, o mercado conta com três padrões do IAB Tech Lab. O ads.txt, publicado em 2017, lista quem está autorizado a vender o inventário de um site e se essa relação é direta ou de revenda. O sellers.json mostra quem cada plataforma representa. O SupplyChain object registra, pedido a pedido, por quais intermediários a impressão passou. Os dois últimos foram finalizados em julho de 2019.
Em termos simples: se a mesma impressão chega por cinco caminhos, o SPO pergunta qual deles merece o seu lance. E, principalmente, quais deles só existem para cobrar pedágio.
Por que o caminho ficou tão longo
O header bidding resolveu um problema dos veículos e criou outro para os anunciantes. Ao permitir que várias SSPs disputassem a mesma impressão ao mesmo tempo, multiplicou as rotas possíveis. Depois vieram os revendedores, reembalando o mesmo inventário em ainda mais leilões.
Os números mostram o tamanho do emaranhado. A Jounce Media identificou que o publisher médio de leilão em tempo real estava integrado diretamente a 24,5 SSPs em março de 2025, autorizando 15,3 delas a iniciar leilões de revenda, com a retransmissão por trás de 37% dos leilões de display.
A duplicação é consequência direta. Um relatório da DataBeat de junho de 2026 mostrou que 46% dos domínios acessíveis pelas maiores SSPs também podiam ser alcançados por uma segunda rota. O motivo: SSPs estabelecidas aparecendo como revendedoras em domínios onde já tinham relação direta. E o problema não está diminuindo: 56,9% das novas relações de oferta ainda se formam por meio de revendedores.
Na prática, o anunciante pode estar disputando a mesma impressão contra ele mesmo, em leilões paralelos, pagando taxas diferentes em cada um. É um leilão em que o comprador consegue perder dinheiro até quando ganha.
Quanto custa cada nó do caminho
A pergunta sobre quanto do dinheiro chega ao veículo tem resposta documentada. Em 2020, o estudo da ISBA com a PwC no Reino Unido concluiu que apenas 51% do investimento chegava aos publishers. O dado mais famoso, porém, foi o "unknown delta": 15% da verba simplesmente não podia ser atribuída a ninguém. Das 267 milhões de impressões analisadas, somente 31 milhões puderam ser rastreadas da DSP à SSP, uma taxa de correspondência de 12%.
O mercado reagiu, e o SPO foi parte dessa resposta. No segundo estudo, publicado em 2023, a taxa de correspondência subiu para 58% e o unknown delta caiu para 3%. A parcela que chega aos veículos avançou para 65%. Um detalhe merece atenção: o delta ficou em cerca de 3% no mercado aberto e perto de 1% nos marketplaces privados. Quanto mais curto e contratado o caminho, menos dinheiro some.
Nos Estados Unidos, o estudo da ANA chegou a um número ainda mais desconfortável: só 36 centavos de cada dólar que entra em uma DSP chegam de fato ao consumidor. Na Espanha, o IAB local estimou a mídia efetivamente trabalhada em 41% do investimento programático. E a Jounce Media calculou que cadeias com retransmissão operam com um déficit de monetização de 50% em relação aos caminhos mais diretos.
O custo não é só financeiro. Cada nó adiciona latência e degrada sinais: análises citadas pelo mercado apontam perdas de 40% a 70% na correspondência de identificadores entre plataformas. Caminho longo, portanto, é mais caro, mais lento e menos preciso.
Transparência autodeclarada: o certificado que o próprio aluno emite
Seria reconfortante acreditar que ads.txt e sellers.json resolveram o problema. A adoção é, de fato, impressionante: 97,6% dos pedidos de lance já apontam para um registro transparente no sellers.json.
O problema é o que está escrito nesses registros. A mesma análise da Jounce mostrou que 15% dos pedidos identificados como retransmissão desnecessária estavam rotulados como DIRECT no ads.txt dos publishers. Ou seja: o arquivo que deveria apontar o caminho direto está conduzindo compradores a leilões revendidos.
A explicação é estrutural. Todos os elementos de um caminho são declarados pelos próprios participantes, sem verificação criptográfica, e o sellers.json ainda permite que um vendedor oculte o nome e continue na cadeia. É uma prova em que o aluno corrige a própria prova. Às vezes com nota máxima.
O pedágio para sair do pedágio
Se a transparência fosse prioridade de quem controla a infraestrutura, excluir intermediários indesejados seria gratuito. Não é. A plataforma de compra de uma das maiores big techs do mundo passou a oferecer, em abril de 2025, o bloqueio de vendedores com uma taxa de 1,5% sobre o custo de mídia. Traduzindo: para pagar menos pedágio, o anunciante paga um pedágio.
É nesse contexto que vale olhar com carinho para quem apresenta a parceria com big tech como principal diferencial. Em SPO, a lógica é implacável: todo parceiro é um nó, e todo nó precisa justificar a própria existência no caminho. Uma credencial emitida pela dona do leilão comprova que o intermediário opera dentro das regras dela. Não comprova que o caminho ficou mais curto. Com frequência, a parceria é o próprio caminho que o SPO recomenda questionar.
Em outras palavras: selo não encurta rota. No máximo, decora o pedágio.
O efeito colateral que ninguém mede: quando o SPO corta o Brasil
Há um lado positivo nessa história. Os anunciantes estão consolidando. Nos dados da ANA do segundo trimestre de 2025, a mediana de SSPs por campanha caiu de 19 para 17, e os domínios ativos de quase 54 mil para cerca de 29 mil. A Kimberly-Clark reduziu CPMs em 20% ao cortar a compra de quase 29 mil sites para cerca de 1.700.
Agora, a pergunta que as planilhas de SPO raramente fazem: quem sobra na lista? Quando a otimização é feita por escala de domínio, os primeiros cortados são os veículos menores, que não têm estrutura para manter integrações diretas com dezenas de SSPs e por isso dependem de revendedores. No Brasil, esses veículos têm endereço: estão fora das capitais.
E fora das capitais está a maior parte da economia. Segundo o IBGE, as cidades que não são capitais responderam por 71,7% do PIB brasileiro em 2023. Também é lá que o digital local cresce: o Atlas da Notícia 2025 registrou que as iniciativas jornalísticas online passaram de 5.245 para 5.712 em dois anos. Ainda assim, apenas cerca de 1.100 das 5.571 localidades brasileiras estão disponíveis para segmentação geográfica nas plataformas de compra de mídia.
Resultado: um SPO mal calibrado economiza no caminho e perde o destino. A campanha fica mais limpa, mais barata e concentrada nos mesmos grandes portais que todos os concorrentes compram, deixando de fora justamente as praças onde está o crescimento.
SPO com inteligência territorial: o caminho curto que chega mais longe
A saída não é escolher entre eficiência e alcance regional. É mudar a unidade de otimização. Em vez de cortar domínios por tamanho, o SPO com inteligência territorial agrega veículos regionais em caminhos diretos, contratados e auditáveis, e distribui a verba conforme o potencial de cada microrregião.
A tendência de mercado aponta nessa direção. No quarto trimestre de 2025, os marketplaces privados responderam por mais de 92% do investimento mediano nos dados da ANA, e otimizar por métricas ajustadas à qualidade reduziu o custo por conversão em quase 40%, mesmo com CPM nominal maior. Caminho contratado, inventário identificado e critério de qualidade: é exatamente o que um veículo regional bem agregado pode oferecer.
É o modelo da Alright. A rede reúne publishers regionais em 558 microrregiões, com 77% de cobertura do Brasil e 850 milhões de impressões monetizadas por mês. Para o anunciante nacional, isso significa acessar o interior sem depender de revendedores anônimos. Para o veículo regional, significa receber uma fatia maior de cada real investido. Os indicadores refletem essa lógica: ROI médio de 3,2x e 92% de renovação.
Comparativo: três caminhos para a mesma impressão
|
Critério |
Caminho revendido |
SPO por escala de domínio |
SPO com inteligência territorial |
|---|---|---|---|
|
Número de intermediários |
Vários, com leilões duplicados |
Reduzido |
Reduzido e declarado |
|
Fatia que chega ao veículo |
Cerca de 40% a 50% |
Maior, concentrada em grandes portais |
Maior, distribuída entre veículos regionais |
|
Transparência |
Autodeclarada e sujeita a rótulos incorretos |
Melhor nos parceiros mantidos |
Relação contratual e inventário identificado |
|
Inventário |
Amplo, com risco de baixa qualidade |
Premium, mas homogêneo |
Qualificado e com relevância local |
|
Cobertura fora das capitais |
Acidental |
Baixa, pois veículos menores são cortados |
Planejada por microrregião |
|
Diferenciação frente à concorrência |
Nenhuma |
Baixa, todos compram os mesmos portais |
Alta, com praças subexploradas |
|
Dependência de plataforma |
Alta |
Alta |
Diversificada |
Checklist: seis perguntas de SPO para fazer ao seu parceiro de mídia
- Quantos intermediários existem entre a minha DSP e o veículo, e vocês compartilham o SupplyChain object completo?
- Qual percentual do meu investimento chega ao publisher, comprovado com dados de log?
- Quantas das minhas impressões vieram de caminhos marcados como RESELLER, e como vocês verificam os rótulos DIRECT?
- Como vocês identificam leilões duplicados para a mesma impressão?
- Quais veículos regionais foram cortados na última rodada de otimização, e qual o impacto disso na cobertura por praça?
- O que a parceria com a plataforma X acrescenta ao caminho, além de mais um nó?
Se a última pergunta gerar um silêncio constrangido, a otimização já começou.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é Supply Path Optimization (SPO)?
É a prática de identificar, entre os vários caminhos que levam à mesma impressão na mídia programática, os mais curtos, transparentes e eficientes, eliminando intermediários que cobram taxas sem agregar valor.
Qual a diferença entre caminho direto e revendido?
No caminho direto, a plataforma que vende a impressão tem contrato com o veículo. No revendido, ela vende inventário de terceiros, acrescentando taxas e leilões. Segundo o IAB Spain, conexões diretas entregam de 70% a 80% do investimento ao publisher, contra 40% a 50% nos caminhos indiretos.
O que são ads.txt e sellers.json?
São padrões do IAB Tech Lab. O ads.txt lista quem pode vender o inventário de um site e se a relação é direta ou de revenda. O sellers.json mostra quem cada plataforma representa. Ambos são autodeclarados e, por isso, não substituem auditoria.
O que é unknown delta?
É a parcela do investimento programático que não pode ser atribuída a nenhum participante da cadeia. No estudo da ISBA com a PwC, ela foi de 15% em 2020 e caiu para 3% em 2023.
SPO reduz custos de mídia?
Sim, quando bem feito. A Kimberly-Clark reduziu CPMs em 20% ao consolidar a compra de quase 29 mil sites para cerca de 1.700. O ganho vem de menos taxas, menos leilões duplicados e sinais de dados mais limpos.
O SPO pode prejudicar campanhas regionais?
Pode. Quando a otimização corta domínios apenas por escala, veículos regionais que dependem de revenda tendem a sair da lista, reduzindo a presença da marca fora das capitais, onde está 71,7% do PIB brasileiro.
Como fazer SPO sem perder cobertura regional?
Agregando veículos regionais em caminhos diretos e contratados, e planejando a distribuição da verba por microrregião, com base em potencial de consumo e relevância local.