O nacional define a direção, o território define o resultado

Eduardo Prange é CMO da Alright e CEO e cofundador da Zeeng, plataforma SaaS de social media benchmarking. Cofundador da Seekr, empreendedor Endeavor e professor do MBA de AI e Data Science da PUCRS, é especialista em Creator Economy, inteligência artificial e dados aplicados ao marketing. No @ocaradosrankings, transforma dados em rankings que explicam a influência digital.
O Brasil não é um mercado, é um conjunto de mercados que compartilham uma língua. Marcas de consumo já sabem disso na operação: a distribuição é regional, o preço é regional, o sortimento é regional, o concorrente é regional. O que ainda falta, na maior parte dos planos, é a mídia acompanhar essa lógica. A estratégia nacional continua sendo necessária para dar direção, posicionamento e consistência. A inteligência territorial é o que mostra onde estão as oportunidades e como ativá-las, praça por praça, com execução em escala nacional.

1. O consumo brasileiro tem endereço, e não é o das capitais
O anuário IPC Maps 2026 projeta que o interior responderá por 54,8% do mercado consumidor brasileiro, contra 28% das 27 capitais, com a classe C sozinha respondendo por cerca de 36,9% de tudo o que será gasto no país. O IBGE completa o quadro: as cidades que não são capitais responderam por 71,7% do PIB em 2023.
Não é uma questão de sensibilidade cultural. É onde está o dinheiro.
2. O varejo alimentar já provou a tese
Se existe um setor que testou na prática a hipótese "o Brasil é regional", é o varejo alimentar. E o resultado está no ranking. No Ranking Abras 2026, o Grupo Mateus assumiu a terceira posição com R$ 43,5 bilhões, depois de sair de R$ 14,3 bilhões em 2020, enquanto o Supermercados BH subiu ao quarto lugar, ultrapassando o GPA, com crescimento de 20% em 2025.
O topo da lista deixou de ser território exclusivo das bandeiras nacionais: as regionais ocupam a terceira, quarta, sexta, sétima, oitava e décima posições, com Muffato, Pereira, Mart Minas e Koch entre as maiores. O analista ouvido pela reportagem resume o argumento melhor do que qualquer teoria de marketing: os muitos Brasis existentes no país, com suas características diversas, demandam empresas diferentes entre si, e não gigantes nacionais iguais em todas as regiões.
A tendência vem de longe. Levantamento do setor apontou que, entre 2006 e 2021, as empresas de atuação nacional caíram de 36,1% para 25,5% de participação, enquanto as regionais subiram de 63,9% para 74,5%.
Para a indústria, isso muda o jogo de ponta a ponta: o comprador é regional, a negociação é regional e a disputa de gôndola é regional. E há uma pressão extra vindo da mesma direção: segundo a NielsenIQ, entre junho de 2025 e junho de 2026 as marcas próprias cresceram 10,9% em volume, contra 0,7% das marcas tradicionais, um ritmo 15,6 vezes maior. Quem não constrói preferência na praça perde espaço para a marca do varejista daquela praça.
3. A indústria de consumo já opera assim, com resultado
Vitarella, da M. Dias Branco. A marca criou uma plataforma dedicada ao São João e, em 2025, convidou consumidores a votarem nos sabores da linha sazonal lançada em 2026, iniciativa pensada para o Nordeste. O resultado relatado pela empresa foi engajamento acima da média e incremento nas vendas, além de reconhecimento de Top of Mind em Salvador por vários anos.
Campanha com identidade nordestina. Na mesma reportagem setorial, a executiva cita a campanha "Todo lar tem Vita", estrelada por João Gomes e sua avó, que reforçou a identidade nordestina e ampliou a lembrança da marca em todo o país. Repare no detalhe: uma campanha construída a partir de um código regional ampliou a lembrança nacional. Regionalizar não é abrir mão de escala.
Bebidas, o caso clássico. Executivos do setor lembram que a indústria de bebidas sempre teve forte componente regional, influenciado por clima, cultura, hábitos, ocasiões de compra e tradições locais. Por isso o portfólio das grandes companhias combina marcas globais, nacionais e regionais, em vez de apostar em um rótulo único para 5.570 municípios.
4. O consumidor está pedindo isso de forma explícita
Pesquisa apresentada em artigo da Alright na Fast Company Brasil mostra o tamanho da oportunidade: 56% dos entrevistados já se sentiram mais representados por campanhas com criadores da própria região, percentual que chega a 66% entre nordestinos, e 69% disseram já ter comprado ou sentido vontade de comprar um produto indicado por influenciadores regionais.
O mesmo material aponta o tamanho do mercado que sustenta essa conversa: a mídia regional movimenta R$ 9,2 bilhões no Brasil.
5. Onde a estratégia costuma travar: a execução
Quase toda marca nacional concorda com a tese. O problema aparece quando o time de mídia tenta transformar o discurso em plano. Três obstáculos práticos explicam por que a regionalização morre no PowerPoint.
Falta de acesso. Apenas cerca de 20% dos municípios brasileiros estão disponíveis para ativação direta nas plataformas tradicionais de compra. A vontade existe, o inventário organizado não.
Falta de mapa. Segundo o NexOS, solução de inteligência territorial do ecossistema Alright, 48% dos municípios brasileiros são desertos de notícias. Sem saber quais praças são oásis, quais têm baixa presença e quais são desertos, o planejamento trata como iguais territórios que exigem estratégias opostas.
Falta de operação. Negociar com dezenas de veículos, padronizar formatos, consolidar relatórios e comprovar entrega em centenas de municípios é trabalho operacional pesado. É exatamente o que impede a maioria das marcas de ir além de São Paulo, Rio e três capitais.
6. Como a inteligência territorial resolve isso em quatro camadas
Camada 1: diagnóstico. Classificar as praças relevantes para o negócio, cruzando potencial de consumo, presença da marca, distribuição, concorrência e ambiente de mídia disponível. O resultado é um mapa que responde à pergunta central de qualquer diretor comercial: onde eu vendo e não apareço?
Camada 2: priorização. Nem toda praça merece o mesmo investimento. Oásis estadual pede disputa de share of voice; oásis microrregional costuma ter a melhor relação entre alcance e concorrência; deserto pede presença e memória, com menos ruído competitivo. A verba deixa de ser distribuída por população e passa a ser distribuída por oportunidade.
Camada 3: adaptação da mensagem. O conceito nacional se mantém; o que muda são referências, linguagem, personagens, trilha e produtos em destaque. É o que o setor chama de escala com sotaque, e é a diferença entre parecer local e parecer traduzido.
Camada 4: ativação e prova. Compra por Programmatic Guaranteed, Deal ID ou venda direta, entrega em veículos identificados e relatório aberto por praça, com leitura de incrementalidade contra praças de controle.
7. O que decide o nacional e o que decide o território
|
Decisão |
Nível nacional |
Nível territorial |
|---|---|---|
|
Posicionamento |
Define o que a marca significa |
Traduz o significado para códigos locais |
|
Conceito criativo |
Cria a plataforma |
Adapta referências, elenco e linguagem |
|
Orçamento |
Define o volume total |
Distribui por potencial de consumo e gap de presença |
|
Mix de mídia |
Define os pilares |
Ajusta conforme o ambiente disponível na praça |
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Calendário |
Datas nacionais |
Festas, safras e eventos que movem a cidade |
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Métrica |
Alcance e marca no agregado |
Incrementalidade por praça e cobertura efetiva |
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Risco |
Mensagem genérica que não diferencia |
Ação isolada sem frequência útil |
8. Capacidade nacional de execução: o ponto que muda a conversa
Inteligência territorial sem execução vira relatório bonito. Execução sem inteligência vira dispersão de verba. O valor está em ter as duas coisas no mesmo lugar.
É o que a Alright oferece: a leitura de território vem do NexOS, que classifica oásis e desertos e transforma geografia em plano de mídia, e a execução acontece em 558 microrregiões, com cobertura de 2.712 municípios, VTR entre 35% e 50%, viewability de 77%, CTR de 0,30% e tráfego inválido abaixo de 1%, em uma rede que reúne mais de 2.300 publishers regionais. Uma negociação, um contrato, um relatório, centenas de praças.
Na prática, isso significa que o diretor de mídia não precisa escolher entre a simplicidade do plano nacional e a eficiência do plano regional. Ele contrata a direção nacional e recebe a execução território a território.
9. Roteiro para começar em cinco passos
- Mapeie o gap. Cruze vendas, lojas e distribuidores com potencial de consumo por microrregião e liste as dez praças mais desalinhadas.
- Escolha um piloto com pressão real. Cinco a oito praças com frequência útil rendem mais que trinta com presença simbólica.
- Guarde praças de controle. Sem grupo de comparação, não há prova de incrementalidade.
- Adapte o criativo. Mesmo conceito, com referência local na chamada e no call to action.
- Reporte por praça. Alcance, frequência, qualidade de entrega e resultado de negócio por região, não só no agregado nacional.
10. Quatro erros que atrapalham a regionalização
O primeiro é confundir regionalizar com pulverizar: espalhar verba por dezenas de cidades sem gerar frequência em nenhuma. O segundo é achar que regionalizar é trocar o sotaque do locutor, sem mudar referência nem contexto. O terceiro é tratar a ação como campanha isolada, quando o ganho de memória vem da continuidade. O quarto é medir tudo no agregado nacional, onde qualquer ganho regional é diluído até desaparecer da planilha.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é inteligência territorial em mídia?
É o planejamento e a compra organizados por microrregião e município, usando dados geográficos, econômicos, de audiência e de ambiente de mídia como unidade de decisão, em vez de tratar o país como um mercado único.
Regionalizar significa abandonar a estratégia nacional?
Não. O nacional define posicionamento, conceito e consistência. O territorial define onde investir, com que peso e com quais adaptações de mensagem.
Por que o varejo regional cresce mais que o nacional?
Por proximidade e adaptação: sortimento, preço e relacionamento ajustados à realidade de cada praça. O Ranking Abras 2026 mostra redes regionais ocupando posições que antes eram exclusivas de grupos nacionais.
Regionalizar encarece a campanha?
Não necessariamente. Em praças com menos concorrência publicitária, o custo por resultado tende a ser mais favorável, e a adaptação de criativo costuma custar menos do que uma nova produção.
Como provar o resultado de uma campanha regional?
Comparando praças ativadas com praças de controle equivalentes, com leitura de vendas, leads ou tráfego, além de indicadores de entrega por região.
Dá para executar isso em escala nacional?
Sim. É exatamente o papel de uma rede regional agregada: uma negociação e um relatório único, com entrega em centenas de municípios.
Uma estratégia, 558 microrregiões
A Alright combina a leitura territorial do NexOS com execução em 2.712 municípios, veículos identificados e relatório aberto por praça. Fale com o time comercial para mapear onde a sua marca vende e não aparece, ou simule o investimento por região.