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PUBLISHERS · 6 min de leitura · 04 nov 2026

Folha, UOL e Estadão assinaram com a IA. O seu veículo recebeu o quê?

Eduardo Prange
Eduardo Prange
CMO - Chief Marketing Officer

Eduardo Prange é CMO da Alright e CEO e cofundador da Zeeng, plataforma SaaS de social media benchmarking. Cofundador da Seekr, empreendedor Endeavor e professor do MBA de AI e Data Science da PUCRS, é especialista em Creator Economy, inteligência artificial e dados aplicados ao marketing. No @ocaradosrankings, transforma dados em rankings que explicam a influência digital.

Em 2026, grandes grupos de mídia brasileiros — Folha de S.Paulo e UOL com a OpenAI, e Estadão com o Google — fecharam acordos comerciais de licenciamento de conteúdo jornalístico para uso em inteligência artificial generativa. Os valores não foram divulgados publicamente. Especialistas, incluindo um relatório do Open Markets Institute citado pelo Nieman Journalism Lab, apontam que esse mercado de licenciamento tende a concentrar recursos nos maiores grupos de mídia, deixando a maioria dos veículos regionais e de menor porte sem acesso a esse tipo de receita.

Folha, UOL e Estadão assinaram com a IA. O seu veículo recebeu o quê?

Ao longo de 2026, três dos maiores grupos de mídia do Brasil fecharam acordos comerciais de licenciamento de conteúdo com as principais empresas de inteligência artificial generativa do mundo. O Estadão assinou com o Google para alimentar o Gemini. A Folha, depois de processar a OpenAI, fechou acordo com o Google para o mesmo fim e, junto com o UOL, assinou parceria direta com a própria OpenAI para o ChatGPT. É notícia boa para o jornalismo brasileiro, sem dúvida. Mas é bom lembrar: nenhum desses três nomes é um veículo regional, e os valores desses contratos não foram divulgados. Se você lidera ou opera um veículo fora desse grupo seleto, a pergunta que fica é desconfortável: esse dinheiro chega até você?

O que foi fechado, e quando

A sequência de acordos não para de crescer. Em janeiro de 2026, o Estadão tornou-se o primeiro grande veículo brasileiro a fechar parceria formal com uma plataforma de IA, cedendo ao Gemini um feed de notícias em tempo real disponível 24 horas por dia, usado especialmente em consultas sobre notícias de última hora. Em maio, a OpenAI anunciou que UOL e Folha de S.Paulo assinaram o primeiro acordo comercial entre mídia brasileira e a empresa, prevendo fornecimento de conteúdo jornalístico ao ecossistema do ChatGPT, com acesso adicional a ChatGPT Enterprise, à API da OpenAI e ao Codex. Pouco depois, a Folha fechou também com o Google: segundo a Conversion, o jornal cede arquivo histórico e feed em tempo real para treinar o Gemini, em modelo de remuneração fixa mais variável, e aderiu ao programa News Pilot, do Google News.

Em nenhum dos casos os valores foram divulgados. Como registrou a Meio & Mensagem, o diretor de redação da Folha, Sérgio Dávila, confirmou que a remuneração acontece em duas partes, uma fixa e outra variável, mas não revelou a composição nem o valor do contrato.

Por trás dos acordos, uma disputa jurídica

Esses contratos não nasceram de boa vontade. A Folha só chegou ao acordo com o Google depois de processar a OpenAI por uso não autorizado de seu conteúdo. E, no plano regulatório, o Cade abriu, em abril de 2026, uma investigação para apurar se o Google abusou de posição dominante ao usar conteúdo jornalístico em ferramentas de IA sem remunerar os veículos responsáveis, enquanto a Fenaj pressiona pela aprovação do PL 2338 no Congresso, que prevê remuneração obrigatória pelo uso de conteúdo protegido por direitos autorais em sistemas de IA.

Em outras palavras: o dinheiro que está sendo pago hoje não é generosidade de big tech. É o resultado de processo, pressão regulatória e poder de barganha — três ativos que um jornal nacional de grande porte tem, e que a esmagadora maioria dos veículos regionais brasileiros não tem.

O "duplo aperto" que a pesquisa internacional já nomeou

Esse padrão não é exclusividade brasileira, e já tem diagnóstico formal. Um relatório do Open Markets Institute, organização de pesquisa americana, coberto pelo respeitado Nieman Journalism Lab da Universidade Harvard, descreveu o fenômeno como um "double bind", ou duplo aperto: o dinheiro do licenciamento flui para os grandes grupos de mídia, enquanto o site médio ou pequeno, que não tem porte para negociar, continua de fora tanto da receita de licenciamento quanto, cada vez mais, do tráfego de busca que antes sustentava o seu modelo de negócio. Ou seja: o pequeno e o regional perdem dos dois lados ao mesmo tempo.

Há um sinal recente, ainda tímido, de que isso pode mudar. Segundo reportagem da Eurisko, o Google começou a testar um "piloto de contribuição para IA", que remunera publishers quando seu conteúdo contribui de forma significativa para respostas do Gemini, dos AI Overviews e do AI Mode, com dezenas de publishers já contatados, em um modelo que pode favorecer proporcionalmente mais os publishers pequenos, porque a remuneração está ligada ao valor percebido do conteúdo usado, e não só ao tamanho do contrato negociado. É promissor, mas ainda é piloto, com critérios de pagamento pouco transparentes, e nada garante que vai se tornar programa permanente nem que vai alcançar veículo de porte pequeno a médio em escala relevante.

Por que esperar por esse dinheiro não é plano de negócio

Já mostramos, em artigo anterior desta série, que apenas 15% dos brasileiros pagam por notícia e que a maioria prefere assistir a um anúncio a assinar uma publicação. O capítulo do licenciamento de IA é o mesmo problema estrutural com um nome novo: é mais uma fonte de receita real, documentada e crescente, que está, na prática, disponível hoje apenas para quem já tem escala nacional, departamento jurídico e poder de barganha com big tech. Esperar que esse modelo "desça" para o veículo regional em escala relevante, no curto prazo, é construir planejamento financeiro sobre uma hipótese que nem o próprio mercado internacional sustenta com confiança.

O caminho que já está disponível, hoje, para o veículo regional

Fonte de receita

Quem acessa hoje, de fato

Disponibilidade para veículo regional

Licenciamento de conteúdo para IA

Grandes grupos nacionais com poder de negociação e disputa jurídica

Praticamente nula no curto prazo

Assinatura e paywall

Veículos com marca nacional consolidada há décadas

Baixa, concentrada em poucos nomes

Inventário programático aberto

Qualquer site, mas com desperdício documentado de até 64% do investimento

Acessível, mas de baixo valor por impressão

Rede regional com veículo identificado

Veículos com credibilidade e audiência de praça, de qualquer porte

Alta: é o modelo construído para esse porte de veículo

O que fazer enquanto o mercado de licenciamento não chega até você

  1. Não baseie o planejamento financeiro em receita de licenciamento de IA. Acompanhe o tema, inclusive os programas-piloto, mas trate como oportunidade futura incerta, não como linha de receita do próximo orçamento.
  2. Fortaleça o que já é seu: credibilidade e audiência de praça. É o ativo que nenhuma big tech consegue replicar, e é também o critério que, segundo o próprio piloto do Google, pode determinar remuneração futura por uso de conteúdo.
  3. Monetize pela via que já funciona para o seu porte. RPM otimizado, audiência própria e conteúdo patrocinado bem sinalizado continuam sendo o caminho mais realista, hoje, para a maioria dos veículos regionais brasileiros.
  4. Organize o básico técnico mesmo assim. Dados estruturados de autoria e conteúdo original bem assinado aumentam a chance de ser identificado como fonte relevante, caso programas de remuneração por uso de IA realmente se tornem acessíveis a veículos do seu porte no futuro.

Perguntas frequentes (FAQ)

Quais veículos brasileiros já fecharam acordo de licenciamento de conteúdo com IA?

Estadão com o Google (Gemini), e Folha de S.Paulo e UOL com a OpenAI (ChatGPT); a Folha também fechou posteriormente com o Google.

Quanto vale esses contratos?

Os valores não foram divulgados publicamente em nenhum dos casos conhecidos.

Veículos regionais podem fechar esse tipo de acordo?

Em tese sim, mas na prática esses contratos até agora se concentraram em grandes grupos com escala nacional e poder de negociação, incluindo disputa jurídica prévia em alguns casos.

O que é o "duplo aperto" (double bind) citado por pesquisadores?

É o diagnóstico de que o mercado de licenciamento de conteúdo para IA concentra receita nos grandes grupos de mídia, enquanto veículos pequenos e médios perdem tanto essa receita quanto o tráfego de busca tradicional ao mesmo tempo.

Existe algum programa que pague veículos menores pelo uso de conteúdo em IA?

O Google testa um piloto de remuneração vinculado ao valor do conteúdo usado em respostas de IA, que pode favorecer veículos menores, mas ainda está em fase experimental, sem critérios públicos claros.

Qual o caminho de receita mais realista para o veículo regional hoje?

Monetização por publicidade qualificada em rede regional, com RPM otimizado, audiência própria e conteúdo patrocinado bem sinalizado, enquanto o mercado de licenciamento de IA ainda não chega a esse porte de veículo.

Monetize o que já é seu, com quem já paga por isso

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